EDIFICAÇÕES E ESPAÇOS LIVRES

| 2007

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  • autor(es): Bruno Santa Cecília
  • originalmente publicado em: arq.urb Revista eletrônica de Arquitetura e Urbanismo, v. 1, p. 56-69, 2008. Os argumentos que compõem este texto foram apresentados na Mesa Redonda “Edificações e Espaços Livres” do II Seminário de Pós-Graduação da Universidade São Judas Tadeu, em agosto de 2007. Os argumentos que compõem este texto foram apresentados na Mesa Redonda “Edificações e Espaços Livres” do II Seminário de Pós-Graduação da Universidade São Judas Tadeu, em agosto de 2007.
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    Como as árvores são magníficas, porém o mais magnífico ainda é o espaço sublime e patético entre elas.

    Rainer Maria Rilke

     

    Resumo

    A partir de arquiteturas exemplares presentes em Minas Gerais, o texto destaca alguns aspectos  da estreita vinculação entre o entorno e a edificação,  ressaltando tanto o valor do espaço livre  como componente indissociável da própria solução de projeto,  como o  papel que o mesmo assume, na escala da cidade,  articulando funções urbanas e definindo os domínios público e privado.

    Palavras –chave:  paisagem, relações, edifício, espaço livre.

     

     

     A paisagem das cidades é formada não apenas pela imagem dos edifícios que as compõem mas, principalmente, pelas relações que estes edifícios estabelecem entre si e entre os espaços livres3 que os circundam. Algumas arquiteturas, mais que simplesmente ocupar fisicamente um lugar no espaço, complementam e redefinem seu entorno imediato, tornando-se parte indissociável dele, como atesta Oscar Niemeyer:

     O espaço arquitetural faz parte da arquitetura e da própria natureza, que também a envolve e limita. Entre duas montanhas ele está presente e nas suas formas se integra como um elemento de composição paisagística. (NIEMEYER, 1997)

     Arquiteturas exemplares nos ensinam a impossibilidade de se pensar o edifício isolado de seu contexto imediato. E é através dessas arquiteturas precedentes que pretendo exemplificar algumas idéias que considero importantes para a formação de nossa cultura espacial.

    Por opção, irei me ater apenas à arquitetura feita em Minas Gerais, já que constitui minha vivência mais próxima e imediata. Refiro-me a uma “arquitetura feita em Minas”, por recusa em assumir a existência de uma “arquitetura mineira”, haja vista a pluralidade de suas manifestações e a inexistência de uma “escola” ou corrente arquitetônica dominante. Esta opção também me agrada pela liberdade de poder mencionar arquitetos importantes que não nasceram em terras mineiras.

    Assim, enfatizei dois momentos históricos de grande importância para a arquitetura feita em Minas Gerais e que, por sua relevância, repercutiram e geraram desdobramentos em âmbito nacional. São eles: a arquitetura do período barroco e colonial e a fase heróica da arquitetura moderna, inaugurada por Oscar Niemeyer com Pampulha.

    Dentro desses recortes, creio ser possível identificar alguns denominadores comuns que concorrem para a valorização do espaço livre como componente arquitetônico indissociável do próprio edifício.

    A intenção não é, obviamente, tentar esgotar ou abordar profundamente um assunto tão vasto, mas destacar alguns aspectos da relação entre edifícios e espaços livres que, sem dúvida, ainda constituem potenciais referências para a produção arquitetônica contemporânea.

     O espaço livre como elemento estruturador do domínio público

    A prevalência da res publica4 é bastante notável nas cidades e formações urbanas do período barroco mineiro; particularmente em Ouro Preto, no âmbito dos edifícios religiosos. Ali vemos claramente a distinção entre a implantação do edifício público e do privado, buscando a valorização do primeiro como elemento mais importante dentro do contexto urbano.

    Esta lógica é bastante legível desde a chegada pela Praça Tiradentes, principal espaço público e cívico da cidade, no qual a presença do casario colonial em altimetria e implantação regulares marca a perspectiva e reforça o caráter singular dos prédios do Museu da Inconfidência e da Antiga Escola de Minas.

    Na cidade histórica mineira os monumentos comparecem, invariavelmente, como volumes isolados no espaço urbano, garantindo sua condição de visibilidade integral. Além disso, sua implantação tem a qualidade de modificar a própria conformação do tecido urbano, definindo largos e espaços públicos que se diferenciam hierarquicamente do traçado viário.


    Por sua vez, a implantação do edifício particular, sem afastamentos, compõe eixos longitudinais ao longo das vias, conformando blocos homogêneos. Dessa forma, cada casa busca manter sua individualidade através da composição planimétrica das fachadas, formando um pano de fundo para os monumentos.

    No caso da cidade de Diamantina, essa distinção se faz menos presente já que a maioria dos monumentos encontra-se integrada ao casario.

     

    No entanto, esta condição não implica em menor diferenciação do lugar público, como demonstram as Igrejas e Capelas da cidade, cuja implantação promove alargamentos no traçado urbano, marcando sua presença e favorecendo sua contemplação.

    De fato, em toda a história da arquitetura, os espaços livres mantêm papel fundamental como articuladores das funções urbanas e dos domínios público e privado. Em Belo Horizonte, esse papel fica evidenciado através do Edifício Sulacap, cujo projeto constrói generosamente uma praça no centro da quadra.

     A implantação do edifício desenha o vazio e cria uma esquina onde antes não existia, produzindo um espaço de grande vitalidade. Além da criação de um espaço gregário por excelência e da manutenção de um diálogo com a cidade, as torres do Sulacap emolduram uma bela visada do Viaduto Santa Tereza, hoje obstruída por um acréscimo edificado sobre a praça.

    Ainda em Belo Horizonte, as obras de Oscar Niemeyer nos ensinam a importância da individualização do volume como fator de diferenciação, e da manutenção do espaço livre como condição imprescindível para fruição dos edifícios.  No conjunto arquitetônico da Pampulha (1942), Oscar tornou seus edifícios singulares e reforçou seu caráter excepcional, sem romper a horizontalidade predominante da paisagem, implantando-os em penínsulas salientes que avançam sobre a lâmina d´água.





    Desta forma, Niemeyer garantia a desejável diferenciação de suas obras em relação às futuras ocupações da orla da lagoa e, ao mesmo tempo, obtinha belos efeitos pictóricos pela reflexão da imagem dos edifícios no espelho d´água, tendo a paisagem natural como pano de funo. Por outro lado, uma implantação cuidadosa garantia, ainda, um certo distanciamento entre os edifícios, mas sem obstruir a visão plena um do outro. Curiosamente, apenas a Igreja foge à regra, possivelmente pelo maior isolamento exigido pelo seu programa.

    Os jogos de interpenetração espacial

    A arquitetura moderna consagrou-se, entre outras conquistas, pela integração física e visual  promovida entre o interior e exterior das edificações. Essa continuidade era obtida, desde o MEC em 1936, pela adoção dos volumes sobre pilotis; liberando efetivamente o solo (a) ou enquadrando a paisagem circundante (b). Ou ainda pelo uso generoso dos panos de vidro, cujo efeito de permeabilidade visual é acentuado no período de uso noturno(c).

    (a)

    (B)

    (C) 

    De modo contrário, o passadiço do antigo educandário feminino em Diamantina é exemplo de uma justaposição espacial radical. Construído para interligar duas edificações vizinhas e reduzir o contato com o mundo exterior, este elemento constitui um prolongamento do espaço privado sobre o domínio público, mantendo a independência de ambos.

    Já nas obras de Pampulha, Oscar Niemeyer buscou uma integração mais efetiva entre os espaços exterior e interior das edificações. No Cassino, a solução singular dada pelo arquiteto para o fechamento da escada diagonal que liga o salão de baile ao terreno é excepcional por sua ambiguidade. Ele cria um espaço de transição que é, ao mesmo tempo, aberto e fechado, interno e externo.

    Por sua vez, no interior do edifício, os meios níveis e os pés-direitos de aturas variáveis realizam um hábil jogo de sobreposições espaciais.

     Na Igrejinha, essa integração é reforçada não só pelo fechamento de vidro do acesso principal,  mas também pela extensão do revestimento do piso externo no interior da nave, diluindo a transição entre público e privado. Recurso que foi utilizado posteriormente por vários outros arquitetos.

    Oscar também recorria a sobreposições espaciais para reforçar determinada qualidade arquitetônica de seus projetos. Na Casa do Baile, por exemplo, a leitura do espaço circular é mantida, tanto externa quanto internamente, pela hábil interseção de duas circunferências que separam as áreas de serviço do salão principal.

    Um esquema compositivo similar pode ser verificado na Igreja Nossa Senhora do Rosário, em Ouro Preto. Sua nave é gerada por três elipses intersecantes, criando um interior de grande riqueza espacial sem similares na arquitetura portuguesa pregressa.  No Rosário, assim como da Casa do Baile, os problemas plásticos gerados pelos complexos encontros das superfícies curvas foram magnificamente resolvidos.

    Por todo o exposto, e pelo caráter de permanência das obras citadas, creio que elas merecem ser sempre revisitadas pelos arquitetos contemporâneos, se entendermos que a própria história guarda possíveis antecipações das práticas futuras.

    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

     

    BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. Barroco e História. Revista Interpretar Arquitetura nº5, vol. 4, março de 2003. Disponível em: http://www.arq.ufmg.br/ia/barroco.html. Acessado em agosto de 2007.

    BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. Arquitetura e humanismo: do humanismo de ontem à arquitetura de hoje. In: MALARD, Maria Lúcia (org.). Cinco textos sobre arquitetura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2005.

    MATOSO, Danilo Macedo. A matéria da invenção: criação e construção das obras de Oscar Niemeyer em Minas Gerais, 1938-1954. Dissertação de Mestrado. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais – Escola de Arquitetura,  2002.

    NIEMEYER, Oscar. Conversa de Arquiteto. Rio de Janeiro: Revan, 1997.


    3     Agradeço à contribuição da arquiteta Rosa Klias na delimitação precisa do termo “espaço livre [de edificações]”.

    4     Do Latin, coisa pública. O conceito de “república” considera justamente a prevalência do bem e da ordem pública ou coletiva sobre os bens e valores individuais ou privados. Cf. BRANDÂO (2005).

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